OBRAS DE ARTE EM FERRO FUNDIDO   

 TÉCNICAS DE CONSERVAÇÃO E RESTAURO 

SEMINÁRIO INTERNACIONAL
RIO DE JANEIRO
1 e 2 de Julho de 1997

Tradução: Francis Wuillaume

 ÍNDICE 
PREFÁCIO 
Elisabeth ROBERT-DEHAULT
AS FUNDIÇÕES ARTÍSTICAS; SUA HISTÓRIA E SEUS ESCULTORES 
Elisabeth ROBERT-DEHAULT
TÉCNICAS DE FABRICAÇÃO; MOLDAGEM, FUNDIÇÃO,
MONTAGEM, ACABAMENTO 
Elisabeth ROBERT-DEHAULT, Laurent MÉTIVIER
ANÁLISE DO MATERIAL, COMPOSIÇÃO, CARACTERÍSTICAS 
ANÁLISE DOS FENÔMENOS DE ENVELHECIMENTO, CORROSÃO 
Elisabeth ROBERT-DEHAULT, Yves DELACHAUX
TÉCNICAS DE RESTAURAÇÃO, REFORMA, MANUTENÇÃO, PREVENÇÃO 
Elisabeth ROBERT-DEHAULT, Yves DELACHAUX, Laurent MÉTIVIER
A FUNDIÇÃO ARTÍSTICA DE HOJE, CRIAÇÃO E PRODUTOS 
Yves DELACHAUX

AGRADECIMENTOS

Ao Sr. Prefeito da cidade do Rio de Janeiro
À Sra. Presidente da Fundação Parques e Jardins,
À Sra. Eulalia Junqueira, coordenadora do colóquio

Ao Sr. Presidente da Light
Ao Sr. Carlos Birr-Meza, chefe de gabinete do presidente da Light

Ao Sr. Jacques Paul Cassinelli

À Sra. Annick Texier, do Laboratório de Pesquisa de Monumentos Históricos

À Sra. Grémont, curadora da Fundação Coubertin
Ao Sr. Jean Dubos, diretor técnico da fundição Coubertin

Ao Sr. Stéphane Pennec - LP3 Semur-en-Auxios

Ao Sr. Serge Valle - CTS - Vitry-le-François

Ao CTIF, centro técnico das indústria de fundição: Sr. Candotti

Às empresas GHM Fonderie d'art, Fonderies de Tréveray, Aciéries Hachette et Driout.


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 NOTA 

 

O presente documento contém apenas as sete palestras proferidas pelos três membros da ASPM (Associação para a Salvaguarda do Patrimônio Metalúrgico da Haute-Marne) e da fundição artística GHM.

Os atos do colóquio serão alvo de publicação ulterior e incluirão:

-  os discursos de abertura da Sra. Presidente da Fundação Parques e Jardins,

- o discurso de encerramento proferido pelo Sr. Carlos Birr-Meza, chefe de gabinete do presidente da Light,

bem como as seguintes comunicações:

A transformação urbana do Rio de Janeiro nos séculos XIX e XX, por Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, assessor do Prefeito do Rio de Janeiro,

O acervo da Fundação Parques e Jardins no Rio de Janeiro e do Brasil, por Eulalia Junqueira, coordenadora do Centro de Pesquisas e do colóquio,

História da Light e da fundição dos candelabros cariocas, por Paulo Roberto Tavares Ferreira,

Comunicação do Diretor da Fundação Parques e Jardins.
 

 PREFÁCIO 

 

Nascida por volta de 1830, fruto do encontro da arte com a indústria, a fundição artística francesa irá muito rapidamente ser reconhecida e elogiada, não só pelos júris das exposições universais mas também por um público amador cada vez mais numeroso.

Mais de 200 grandes escultores também irão pisar a areia de nossas fundições para aperfeiçoar, juntamente com os engenheiros, as técnicas permitindo a reprodução ad infinitum de suas obras mais representativas. Quem desconhece os nomes de Carpeaux, Carrier-Belleuse, Bartholdi, Guimard ou Rude?

Desta estreita colaboração irão nascer obras excepcionais, existentes atualmente tanto em museus (estátuas da praça em frente ao museu d'Orsay, saguões da estação Guimard do metrô...), como nas metrópoles do mundo inteiro.

Com mais de 150 obras artísticas francesas em ferro fundido, a cidade do Rio de Janeiro é uma ilustração espetacular do gênio interpenetrado do escultor e do fundidor. Tornou-se a vitrine internacional desta arte em série, hoje considerada apenas como Arte.

Tais obras de arte fundidas fizeram o objeto de uma redescoberta iniciada em 1992 pela ação de Jacques Paul Cassinelli, representante de Electricité de France e ASPM, Associação para a Salvaguarda e Promoção do Patrimônio Metalúrgico da Haute-Marne. A cidade do Rio de Janeiro possuindo a maior parte destas obras, Eulalia Junqueira, da Fundação Parques e Jardins, uniu-se logo depois às pesquisas.

Em 1995, a exposição "Fontes de Arte", apresentada na Casa França-Brasil, representou não só a conclusão das profundas pesquisas empreendidas em ambos os lados do Atlântico mas também a revelação de um patrimônio excepcional, embora pouco conhecido dos cariocas.

Na mesma época, o prefeito do Rio de Janeiro e o presidente da Fundação Parques e Jardins desejaram perenizar o trabalho empreendido por meio da assinatura de dois convênios pelos quais foi instaurada uma associação entre a cidade e a ASPM envolvendo as dimensões históricas, artísticas e técnicas destas obras em ferro fundido.

Tal associação envolve não somente as obras em ferro fundido do Rio de Janeiro como as de outras cidades brasileiras: Manaus, Recife, Salvador, Petrópolis e Belém, em particular.

O seminário dos dias 1 e 2 de Julho é conseqüência dos convênios assinados. A fundição de arte G.H.M., herdeira das duas maiores fundições de arte francesas, Durenne e Val d'Osne, vem trazer um know-how aperfeiçoado desde 1835.

A vocação desta manifestação é de preservar, pelo restauro e manutenção, o excepcional patrimônio do Rio de Janeiro, do Brasil e de todos os países do Novo Mundo que o possuem  (Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Chile, Argentina e México).

Para nós, europeus, auscultar estas obras em ferro fundido moldadas há mais de um século e meio em nossa areia e confeccionadas a partir do minério de ferro de nossa terra natal é uma aventura apaixonante. Vê-las viver sob outros céus e integrar-se perfeitamente num urbanismo diferente é uma revelação: a da universalidade desta arte em série que não envelheceu.

 

Elisabeth Robert-Dehault


 

I -  AS FUNDIÇÕES ARTÍSTICAS: SUA HISTÓRIA E SEUS ESCULTORES

 

I - 1  HISTÓRIA DA FUNDIÇÃO ARTÍSTICA

 

A historia da fundição artística é, antes de tudo, a história da fundição de ferro, material fetiche de um século XIX cuja palavra-chave era o progresso.

Percorrendo o imenso canteiro a céu aberto que era Paris no século passado, o barão Haussmann pedia: "Ferro, mais ferro!". De ferro e ferro fundido, Paris não sentirá falta. Estes materiais participarão da construção de pontes e grandes prédios públicos, harmonizarão as fachadas dos imóveis com os balcões e apoios de janela, investirão sobre a paisagem urbana com milhares de lamparinas, acessos do metrô Guimard, colunas Morris, grandes chafarizes ou as famosas fontes Wallace, estátuas e vasos.

Da mesma forma que em Paris, o ferro fundido marcará de modo indelével e atemporal a arquitetura e o urbanismo das metrópoles não somente européias mas do mundo inteiro.

O ferro fundido é o mais antigo dos produtos ferrosos moldados visto que os chineses já o utilizavam no século VI A.C. Disseminado pela Europa desde o século XIV com o surgimento dos altos-fornos, o material será utilizado para fabricar canhões, sinos, peças de forno e de chaminé e canalizações de água. As técnicas de refundição e moldagem são aperfeiçoadas e novas aplicações são tentadas.

A primeira realização importante foi a ponte Coalbrookedale, construída em 1779, na Inglaterra, por Abraham Darby.

A França aguardará até o início do século XIX para lançar-se em construções tão audaciosas: a ponte das Artes e o domo da Halle au Blé, em Paris, por exemplo.

A partir de 1830, o ferro fundido torna-se presença constante na construção. O material faz concorrência ao bronze e substitui o ferro forjado, a pedra e a madeira. Dessa forma, a utilização de colunas em ferro fundido nos prédios públicos permite a construção de espaços internos de elevado pé-direito, muito espaçosos e claros (a bibliotecas Santa Genoveva e Nacional, em Paris). Da mesma forma, a estrutura das Halles de Paris, construídas por Baltard a partir de 1845, recorreu copiosamente ao material.

Em todas essas construções, o ferro fundido permite dar aos próprios elementos da estrutura um aspecto decorativo por meio da qualidade das decorações moldadas, das quais ornamentos de colunas foram muito utilizados.

Ao mesmo tempo, a aparição e a multiplicação do mobiliário urbano - primeiro os candelabros e, logo em seguida, os chafarizes, bancos, grades e quiosques - apoiou-se no recurso quase exclusivo do ferro fundido.

O ferro fundido moldado, com seus ornamentos muito trabalhados, torna-se um componente maior das paisagens urbanas do século XIX. O modelo europeu será disseminado pelo mundo inteiro.

As estátuas em ferro fundido, material que permite a reprodução das peças originais em vários exemplares, ocupam um lugar cada vez mais destacado. O material dará inspiração ao gênio criativo de muitos escultores do século passado.

A fundição artística nasceu nos anos 1830. Os primeiros fundidores artísticos franceses são Jean Pierre Victor André, em Val d'Osne, Haute Marne, Calla em Paris, Ducel em Pocé, Indre.

Quem foi o primeiro? Aparentemente, o Le Val d'Osne, caso se acredite no relatório da exposição universal de 1844: "Deve ser lembrado que o senhor André é o criador da moldagem em Champagne: acreditou-se durante muito tempo que as nossas fundições, geralmente convertidas em ferro, não dispunham das qualidades necessárias para serem usadas em bronze. Assim, confeccionava-se apenas marmitas e placas. O senhor André foi o primeiro a tentar utilizar o ferro fundido para outros fins".

Outros grandes fundidores, como Muel em Tusey-Vaucouleurs, Meuse, Durenne em Sommevoire, Capitain-Gény em Bussy, Fundições de Saint-Dizier (parceiros exclusivos de Hector Guimard) em Haute-Marne, Denonvilliers em Sermaize-sur-Saulx, Marne, Thiébaut em Paris e Voruz em Nantes, produzirão de modo conseqüente peças ornamentais que podem ser admiradas até hoje no mundo inteiro.

Na ausência quase total de arquivos, é difícil reencontrar os primeiros tempos da fundição artística. Contudo, a produção é bem conhecida através dos catálogos editados pelos fundidores nos anos 1840: "o sistema de catálogos surge quando a produção torna-se demasiadamente importante para ser absorvida pelo mercado regional. Assim, é preciso passar pelo concessionário que dispõe de catálogos", escreverá Annette Laumon em "Fleur de fonte" de 1986.

Comportando mais de 700 estampas, esses álbuns propõem ao comprador uma extraordinária variedade de produção : 40.000 objetos diferentes recenseados em apenas um dos cinco catálogos do Val d'Osne encontrados. A fundição ornamental está registrada sob todas as letras do alfabeto: "A" de apoios de janela, arquivoltas, anjos adoradores, animais e grupos (15 estampas, comportando cada uma vários modelos); "B" de balcões, balaústres e balaustradas, bordas de chafariz, bancos e bustos; "C" de calvário, candelabros (50 estampas), cristos, cátedras de pregação, cruzes, colunas ornadas, cães, corbelhas; "E" de estátuas (51 estampas comportando de 8 a 12 diferentes modelos); "F" de fontes diversas (35 estampas); "T" de tanques de chafarizes; "V" de vasos e taças (37 estampas), virgens...

Esses catálogos, raramente datados, são verdadeiras obras de arte, luxuosamente encadernados. Os modelos são exibidos sob a forma de gravuras reproduzidas fielmente e classificadas por gênero. O nome dos escultores consta com freqüência bem como informações sobre tamanho, peso e, às vezes, preço.

As primeiras estátuas fundidas foram realizadas a partir de modelos provenientes da oficina de moldagem do museu do Louvre. Tais obras são efetivamente cópias de trabalhos antigos: Diane de Gabies, Apolo de Belvedere, Hígia, Vênus de Milo ou cópias de obras anteriores ao século XIX, especialmente apreciadas pelo público: Amor de Canova, Moisés de Michelangelo, Hipomène et Atalante de Lepautre e Coustou, Amor talhando seu arco na clava de Hércules de Bouchardon, Mercúrio de Jean de Bologne.

O sucesso destas primeiras realizações atrairá adeptos entre escultores, que irão propor determinadas criações à reprodução múltipla. Assim, mais de 200 escultores, dentre os quais Bartholdi, Carpeaux, Carrier-Belleuse, Diélbot, Guimard, Jacquemart, Mathurin Moreau, Pradier, Rouillard e Rude, irão criar, em colaboração com os fundidores, modelos para ferro fundido destinados a serem moldados em série para ornamentarem não somente praças, chafarizes e jardins públicos como também o interior das residências de uma burguesia em expansão, ávida por presentear-se com moradas principescas.

Não faltou coragem para esta iniciativa dos escultores. Com efeito, uma obra de arte deve ser única ou, pelo menos, rara. Quer sejam em mármore ou em bronze, os exemplares replicados a partir de um modelo original eram limitados. Em seguida, o modelo era, muitas vezes, destruído pelo escultor. Deixar reproduzir suas obras em ferro fundido, material pouco nobre, numa quantidade indefinida parecia então uma iniciativa baixamente mercantil e insultuosa para o gênio do escultor.

Esta arte em série, "aliança entre duas marcas de qualidade", permitia oferecer ao público obras com assinaturas admiráveis a preços abordáveis.  "...o ferro fundido ganha do cobre por seu preço inferior. O ferro moldado é encontrado hoje a preços tão baixos que pode substituir com vantagens a madeira e a pedra" escrevia  Guettier em 1847.

Os catálogos assegurando a difusão da produção das fundições de arte, as exposições universais, misturas dos povos e das inovações que marcariam o século XIX, irão assegurar sua difusão internacional.

Sucessoras das exposições nacionais ou internacionais, as exposições universais serão "utilizadas como emblemas do progresso, símbolos das transformações em curso no mundo da produção ou da cidade". Elas constituem, a partir da segunda metade do século XIX, eventos mundiais cujas repercussões são múltiplas: políticas, econômicas, tecnológicas e, por fim, artísticas.

Catherine Chevillot, curadora do museu de Orsay, escreverá na Revista da Arte (95-1992/1) que elas "contribuíram para difundir o gosto pelo belo em todas as classes da sociedade. Pois qualquer progresso tem como efeito o combate à rotina e à ignorância".

Os fundidores artísticos expõem desde 1851, em Londres, no famoso Crystal Palace, palácio em ferro e vidro. Não hesitam em exibir objetos monumentais. Em 1862, Val d'Osne exporá, novamente em Londres, uma fonte monumental de dez metros de altura, idêntica à peça instalada na praça Monroe, no Rio.

Uma das primeiras leis econômicas reza que a produção somente acontece quando há mercado. No século XIX, o mercado da fundição artística está no auge. O urbanismo, ciência da moda, privilegia a arte de viver em metrópoles em crescimento e as fortunas privadas que vão se formando fazem florescer residências e jardins particulares. Para ornar suas realizações, os arquitetos, paisagistas e decoradores optam  pela arte em ferro fundido.

Em compensação, pode-se afirmar que o mercado somente se desenvolve se a produção satisfaz. No século XIX, a qualidade dos modelos e das reproduções em ferro fundido era tão elevada que o mercado irá explodir muito além das fronteiras européias.

Os relatórios das exposições universais tecem regularmente elogios às fundições artísticas francesas: Ao final da Exposição Universal de 1862, o relator escrevia: "se existe uma indústria na qual a França está incontestavelmente à frente de todos os países, esta é a da fundição artística... Estimamos que, à frente de todos aqueles que se dedicam a essa indústria, posiciona-se o senhor Durenne. Melhores do que a fonte do jardim da Sociedade Real de Horticultura são as peças brutas em ferro fundido expostas no palácio. Tais peças não são apenas admiráveis pela fineza de suas costuras, menos espessas do que a lâmina de uma faca, qualidade preciosa que evita o cinzelamento em razão da nitidez e do polimento de sua superfície. Em tais peças, a ferramenta nada tem a fazer".

Enfim, se a fundição artística nasceu do encontro do escultor com o fundidor e se o "industrial tornou-se artista e o artista industrial", não devemos esquecer a matéria suporte da arte: o ferro fundido: material excepcional que, um século e meio após ter sido moldado, ainda causa admiração por sua qualidade, resistência e atualidade. Não continua ele sendo o preferido dos designers para o mobiliário urbano, por exemplo?

Antes de abordar o assunto principal, isto é, o ataque aos fenômenos da corrosão e as técnicas de restauração do ferro fundido, proponho travarmos conhecimento com aquela que foi a maior fundição de arte da Europa, a Val d'Osne. Considerando que as peças artísticas em ferro fundido no Brasil, como aquelas reencontradas nas duas Américas - Estados Unidos, Canadá, Argentina, Chile, México e Venezuela - eram, em sua maioria originárias de Val d'Osne, julgo necessário apresentar um rápido resumo histórico sobre esta empresa, também representativo da história de suas co-irmãs. 

 

I-2  -  VAL D'OSNE, BERÇO DA FUNDIÇÃO ARTÍSTICA

 

Em 1833, Jean Pierre Victor André, administrador de forjas, decide lançar-se nesta aventura e, em 28 de Outubro de 1834, solicita ao rei Luís-Felipe autorização para construir um alto-forno. Sua escolha recai curiosamente num local antigamente ocupado por um mosteiro, afastado da cidade e escondido no fundo de um vale: Val d'Osne. Naquela época, todas as usinas eram  instaladas sobre cursos d'água de vazão regular e suficiente para provocar o giro das rodas d'água. O Osne é um riacho. Em compensação, minério de excelente qualidade abunda nas florestas próximas, bem como areia.

Autorizado por ordem real de 5 de Abril de 1836 para construir sua usina, Jean Pierre Victor André começa pela edificação do alto-forno, ainda existente até hoje, e inicia rapidamente uma produção voltada para a fundição decorativa: "a fundição ornamental era desconhecida antes do senhor Victor André. Limitava-se à produção de tubos, placas e potes. O senhor André montou de ponta a ponta a indústria da fundição ornamental do ferro fundido", escreverá em 1912 o cronista de Val d'Osne, abade Hubert Maréchal.

Ninguém sabe quais foram as motivações do industrial. Ele já tinha comprovado sua competência técnica em outros locais, porém, contrariamente a Antoine Durenne, também grande fundidor artístico da Haute-Marne, não encontramos nenhum vestígio de formação artística. André, no entanto, vivia em Paris e freqüentava os escultores numa época em que a nasciturna revolução industrial atraía os criadores. Dentre os quais, Mathurin Moreau, autor de uma quantidade impressionante de modelos para Val d'Osne e que se tornaria um dos dirigentes dessa companhia.

A empresa desenvolveu-se. Em 1844 emprega 220 operários, cada vez mais especializados, e acrescenta a seu alto-forno (forno de primeira fusão) 2 "wilkinsons" ou cubilôs (fornos de segunda fusão) para aumentar a produção. Participa de todas as exposições nacionais ou internacionais, sendo premiada em todas elas. A morte prematura de André, em 1851, não lhe permitirá colher os frutos de seu trabalho nem participar dos espetáculos de arte e progresso que  as exposições universais se tornarão a partir daquele mesmo ano.

Contudo, junto aos maiores escultores do século XIX, ele permanecerá na origem deste matrimônio da arte com a indústria, que dará à fundição do ferro um extraordinário impulso, criando êmulos, aperfeiçoando novas técnicas e construindo uma obra que se tornará uma herança cultural para a Haute-Marne.

Após seu falecimento, sua esposa assumirá a direção da usina por quatro anos, vendendo-a em seguida a Gustave Barbezat, antigo "aluno" de seu marido, instalado em Paris.

Barbezat monta um segundo alto-forno, amplia a usina e desenvolve a atividade com novos modelos. Para seus operários, cujo quadro se expande, ele constrói, em 1866, alojamentos cujos últimos locatários partiram em 1987.

Em 1867, Val d'Osne é comprada por Fourment e Houillé & Cia., que assegura uma administração competente até 1870, continuando a desenvolver a fundição artística.

De 1870 a 1892, Val d'Osne vive, sob a razão social "Société Anonyme des Fonderies d'Art du Val d'Osne, um período de intensa atividade, durante o qual os belíssimos acervos de modelos de arte da usina Ducel serão adquiridos (1878), mas também de turbulência financeira que obriga um importante grupo de acionistas a assumir as rédeas do negócio e nomear, como principal executivo da empresa, Charles Hanoteau, engenheiro e antigo aluno da Escola Central de Paris. Hanoteau saneia o negócio enquanto  desenvolve uma política social destinada a melhorar as condições dos operários e de suas famílias.

Desde o final de 1872, Val d'Osne explora um processo de galvanoplastia aperfeiçoado em suas oficinas. Trata-se da patente dos senhores Gaudin, Mignon e Rouart, administradores de Val d'Osne, os quais Charles Hanoteau muito se empenhará para afastar. Este processo visava recobrir de zinco, cobre ou bronze o ferro fundido, a quente, por imersão em banho, ou a frio, por depósito eletrolítico. O objetivo era, naturalmente, a proteção da peça contra a oxidação e, portanto, a corrosão.

As estátuas do Rio de Janeiro aparentemente não foram beneficiadas por tal processo, que evita a corrosão do material por meio de fenômeno eletrolítico.

Em 1895, Hanoteau transfere seus poderes de administrador-delegado a seu filho Henri, também egresso da Escola Central, que ainda trabalharia lá em 1912.

Em 1917, o registro das horas de trabalho dos operários indica que eles fabricam essencialmente granadas e obuses. A usina foi provavelmente requisitada pelo governo francês durante a tormentosa primeira guerra mundial.

Em 1931, a sociedade Durenne, fundada por outro grande fundidor artístico da Haute-Marne, em Sommevoire, adquire Val d'Osne. A empresa torna-se assim a Société Anonyme Durenne et du Val d'Osne. O administrador de Durenne reorienta a produção para peças mecânicas, suprimindo progressivamente a fundição artística.

Se a fundição de arte da Haute-Marne dominava o mercado até 1939, modelos em ferro fundido serão, após a guerra,  muitas vezes refundidos em cubilôs (havia carência de matéria prima) e os modelos em gesso serão quebrados a marreta e jogados no lixo para dar lugar aos novos modelos. Somente os modelos religiosos escaparão, por respeito; o local onde eram estocados era chamado "o paraíso".

Val d'Osne cerrou definitivamente suas portas em 1986, no momento em que suas produções do século passado ganhavam os museus e eram objeto deobstinados leilões no mercado de arte.

O quadro de pessoal foi reaproveitado nas fundições da região. Descendentes de várias gerações de modeladores, moldadores e cinzeladores, eles perpetuam em outros lugares o seu know-how.

 

I-3  -  OS ARTISTAS COLABORADORES DE VAL D'OSNE : A EXPRESSÃO DE UMA ÉPOCA

 

O abade Maréchal escrevia em 1912: "Abordando a grande arte, o senhor André e seus sucessores não cessaram de criar os mais ricos modelos de estátuas, vasos, candelabros e chafarizes monumentais. Os artistas mais famosos  - Mathurin Moreau, Liénard, Pradier, Carrier-Belleuse, Jacquemart, Isidore Bonheur, Delaplanche, Rouillard e Gautherin - emprestaram-lhes sua ajuda e seu talento e colaboraram na formação de uma coleção única no mundo".

Essa coleção, rica de mais de 40.000 diferentes objetos, dispunha de 800 estátuas humanas e 250 estátuas de animais, todas representativas das correntes que influíram na arte do século XIX: romantismo, neoclassicismo, ecletismo, realismo...

Boa parte desses artistas, por intermédio dos fundidores, disseminaram-se pelo mundo, mais especialmente no Brasil. A cidade do Rio de Janeiro é um verdadeiro museu ao ar livre das produções do século XIX. Para nós, que pesquisamos em 33 países, fora a França, o patrimônio carioca é especialmente representativo: cerca de 150 peças em ferro fundido, fontes e chafarizes, estátuas, vasos e objetos decorativos. Mais de 70 diferentes modelos e 17 escultores franceses foram listados até o momento. Vamos partir atrás destes escultores pelas ruas do Rio:

 

Mathurin Moreau, com 3 chafarizes, um dos quais monumental, e 26 diferentes peças, monopoliza o assunto e reflete fielmente o conteúdo dos catálogos de Val d'Osne do século passado.

Nascido em Dijon em 18 de Novembro de 1822, Mathurin foi iniciado à arte por seu pai, o escultor Joseph Moreau. Mathurin e seus dois irmãos, Auguste e François, mais conhecido como Hippolyte, começaram ao lado do pai. Em 1841, ele ingressa na Escola de Belas-Artes de Paris, tornando-se aluno de Ramey e Dumont, que apreciam profundamente seu talento. Um ano mais tarde, é premiado com o segundo lugar em Roma e inicia no Salão em 1848. Mathurin Moreau terá uma longa e fecunda carreira repleta de sucesso e honrarias. Suas obras são inumeráveis. Num estilo sempre clássico, ele consegue, de uma forma elegante e requintada, encontrar na mulher uma fonte inesgotável de inspiração. Como administrador de Val d'Osne, ele cria inúmeros modelos e participa dos aperfeiçoamentos técnicos.

Mathurin Moreau no Rio de Janeiro:

Mais de 25 diferentes estátuas, criadas por esse artista, encontram-se no Rio, além do chafariz monumental da praça Monroe, realizado em colaboração com o arquiteto Liénard, com mais de 10 metros de altura e exposto pela primeira vez em Londres em 1862.

Vários chafarizes e fontes de Moreau ornamentam o Rio. Esses "castelos d'água", edificados no século passado em todas as grandes cidades, permitem fornecer água para todos e são símbolos de riqueza e modernidade.

O nascimento de Vênus é uma peça belíssima, cujo tema inspirou vários artistas.

Florença possui a obra de Botticelli... O Rio de Janeiro a de Mathurin Moreau.

São também obras alegóricas, celebrando:
. o progresso triunfante e seus filhos: a Indústria, o Comércio, a Ciência, a Agricultura e a Marinha;
. as virtudes praticadas pelas nações modernas: a Justiça, a Liberdade, a União, a Fidelidade;
. o mundo conquistado e o comércio internacional nascente: estátuas da Europa, Ásia, África, América e Oceania; também estátuas de Cristóvão Colombo, colocadas no mercado para as comemorações do terceiro centenário da descoberta da América em 1892;
. ou simplesmente as estações do ano. Embora essas estátuas existam em vários exemplares, nós, europeus, procuramos em vão o Inverno. Apenas a Primavera, o Verão e o Outono foram localizadas por aqui.

A invenção do gás de iluminação e, mais tarde, o nascimento da fada eletricidade vão orientar a inspiração artística para as tochas e candelabros. Tais peças assinadas por Mathurin Moreau são admiráveis: a Aurora e o Crepúsculo, encontrados em 5 diferentes lugares , são obras-primas de graça e leveza. Os corpos são belíssimos, ligeiramente encobertos por um véu, o braço erguido valorizando o busto perfeito. O ferro fundido é de extrema fineza e sua "pele" muito lisa. Em 1995, a cidade de Saint-Dizier adquiriu a Aurora e o Crepúsculo, de Mathurin Moreau, num leilão organizado no castelo de Cheverny. Preço: cem mil francos.
     Duas outras tocheiras númidas, designadas "negras" nos catálogos, representam uma outra forma de exibir a magnificência da mulher e atender ao gosto do público. O exotismo colonial estava em voga. Em 1903, um par de tocheiras, semelhantes à peça pertencente à Secretaria de Cultura e Turismo, custava 1.100 Francos. Em 1990, elas foram adquiridas por 250 mil Francos.

Embora Mathurin Moreau fizesse parte dos mestres, venerados e incensados, ele não hesitou em lançar-se, juntamente com os fundidores, na produção de modelos menores. Como Hector Guimard que, no início do século, desenhava e encomendava todos os elementos decorativos das casas e imóveis que construía, Mathurin Moreau também se interessou por estátuas de jardim ou pilastras de escadaria. Assim, ele ilustrou de modo magistral a arte do ferro fundido que ornamentaria tanto castelos quanto cabanas.

 

Jean-Jacques Pradier (James Pradier) (1792/1852) foi, conforme consta, o mais famoso escultor da Monarquia de Julho (1830/1848). No início, um apaixonado pela pintura (foi grande amigo de Géricault), volta-se mais tarde para a escultura e vence, aos 21 anos, o Grande Prêmio de Roma. Acadêmico aos 37 anos, Pradier, apelidado de "o último dos gregos", produzirá uma obra conseqüente no centro da qual reinará a figura da mulher. Juliette Drouet, amiga de Victor Hugo, será seu modelo vivo.

Todos concordam em louvar a obra de Pradier, sensual e acadêmica... menos Baudelaire que, por ocasião do Salão de 1846, escrevia: "ele passou a vida a engrossar alguns torsos antigos e a ajustar em seus pescoços penteados de cortesãs... Este pelo menos sabe produzir carne..."...
    As graciosas estátuas Harmonia e Melancolia, encontradas no Rio, desmentem o poeta.

 

Louis Leguesne (1815/1887), "aluno talentoso" de Pradier e classificado em segundo lugar em Roma em 1843, inicia a promissora carreira de escultor no decorrer da qual honrarias e encomendas afluirão. Sua obra mais conhecida é "o fauno dançante" (Jardim de Luxemburgo, Paris) que inspirará de Theophile Gauthier as seguintes linhas: "ele encontrou o ritmo de movimento, o balanço de linhas cujo segredo os antigos possuíam". Lequesne manifesta profundo interesse pelo ferro fundido com suas novas técnicas e cria um determinado número de modelos destinados à reprodução em série. Nada garante que ele tenha dado o melhor de si para modelar "o amor à lira", todavia o modelo possui o mérito de existir! Que a modéstia desta composição não oculte as demais peças em ferro fundido de Lequesne, particularmente um cavalo, fundido por Ducele, vendido há pouco tempo por 620 mil Francos.

 

Alphonse Lerolle, também aluno de Pradier, era apelidado "o barbediano do Marais", uma alusão à excelente qualidade das fundições artísticas em bronze oriundas da fundição parisiense de Barbedienne. Desse artista, a única obra conhecida , em ferro fundido, é o Rio: Pode ser encontrado no Rio de Janeiro.

 

Pierre Loison (1816/1886) foi, em Paris, aluno de David d'Angers antes de ingressar na Escola de Belas Artes. Sua Moça com a Concha é um clássico dos catálogos para ferro fundido.

 

Gabriel Dubray (1813/1892) foi, da mesma forma que Mathurin Moreau, aluno de Ramay. Ele criará várias obras em ferro fundido, encontradas no catálogo de Ducel e, mais tarde, nos catálogos de Val d'Osne. Dentre elas, um Netuno, belo como um deus ou como aquelas estátuas legadas pela antigüidade e que se tornaram imortais.

O Netuno de Dubray foi encontrado em Trevano, Suíça, nos jardins de uma academia de música em Apollo, Califórnia e, finalmente, no México há menos de três meses atrás.

 

Louis Sauvageau (nascido em 1822): Em ferro fundido, somente conhecemos desse artista a Fonte, uma estátua feminina que pode ser admirada no Rio, isoladamente ou no centro de um chafariz monumental.

A Fonte também foi reencontrada em Apollo, Califórnia, e no México.

 

Frédéric Iselin (1826/1905), aluno de Rude, grande escultor reconhecido na posteridade. Iselin teve uma carreira pública brilhante pois, durante o Império, foi encarregado de esculpir o busto de Napoleão III. De Iselin, no Rio, em ferro fundido, existe a Fonte da criança - uma obra típica de sua época.

 

Auguste Martin (1828/1910), aluno de Jouffroy e de Rude, irá buscar inspiração principalmente na antigüidade. Sua obra está presente no Rio com uma fonte bem "netuniana": crianças sereias carregadas por figuras semi-humanas e pisciformes.

 

Alfred Jacquemart (1824/1896) ingressará na Escola de Belas Artes aos 21 anos, aconselhado por seu professor de escultura, Klagmann. Inicia carreira no Salão mostrando, não uma mulher ou uma composição mitológica, mas um animal: uma garça. Com efeito, a onda "animalista" tomará posse da escultura no século XIX e marcará profundamente a obra de Jacquemart.

Os dois leões do Hotel Novo Mundo, na praia do Flamengo, testemunham essa tendência para a arte animalista. São atribuídas a ele, na França, outras obras de animais: o leão do Val d'Osne, que guarnece a usina desde o século passado, o rinoceronte do museu de Orsay, fundido por Voruz em Nantes, ou ainda cães, até hoje fundidos nas fundições GHM (Sommevoire) a partir de modelos do século passado.

 

Pierre Rouillard (1820/1880) foi um dos mais famosos escultores animalistas. Seu cavalo, obra única fundida pela fundição Durenne, ornamenta a entrada do museu de Orsay. Ex-aluno de Cortot, ele participará da decoração do Louvre, do museu de História Natural e da Ópera de Paris. Em Constantinopla, trabalhará no palácio do sultão e ainda hoje podem ser vistos nos jardins do Dolmabahce leões e vasos monumentais. O proprietário de um vaso idêntico recebeu recentemente uma proposta de venda no valor de 700 mil Francos.

O Jockey Club do Rio possui "Dollar", um famoso cavalo de corridas: peça rara e de alta qualidade encontrada também no campo de corridas de Maisons-Laffite em Paris.

Na Haute-Marne, seu Cervo da América orna Sommevoire e Saint-Dizier; "Royal", o garanhão, pode ser encontrado em Curel, perto de Val d'Osne.

 

Jules Salmson (1823/1902), também aluno da oficina Ramey-Dumont e amigo de Lequesne, após trilhar o percurso clássico - Escola de Belas Artes e Salão - seguirá uma bela carreira e trabalhará na Val d'Osne em cinco diferentes modelos, dentre os quais o Índio e a Índia, reencontrados no Rio.

 

Georges Clère (1819/1901), aluno de Rude,  foi provavelmente dono de sua própria fundição. Em Val d'Osne, trabalhou numa tocheira antiga de classicismo pouco inovador.

 

Provin Serres, aluno de Moreau, fornecerá três modelos a Val d'Osne, inclusive a belíssima sereia do Campo de Santana que ilustra os cartões postais do Rio desde o século passado.

 

Charles Auguste Lebourg (1829/1906), depois de estudar escultura em Nantes, sua terra natal, ingressará em 1851 no ateliê de Rude. Sua carreira, repleta de prêmios e encomendas públicas, dará uma reviravolta decisiva ao encontrar Sir Richard Wallace, um rico herdeiro inglês cujo busto esculpirá bem como o de Lady Wallace. Wallace, apaixonado por Paris, ficou surpreso com a pouca quantidade de pontos d'água de que dispunham os habitantes da cidade, atacada pelos prussianos em 1870. Tomou assim a decisão de oferecer à cidade de Paris "drinkings fountains", semelhantes às de Londres, e para tanto recorreu a Charles Lebourg que projetou dois modelos: um chafariz mural e o famoso "Wallace", com cariátides, que daria a volta ao mundo, inúmeras vezes copiado mas nunca igualado. Foi Barbezat, em Val d'Osne, o moldador e ajustador dos 40 chafarizes encomendados pelo mecenas. Na realidade, haverá mais de cem.

Em certos bairros parisienses que não foram demasiadamente alterados pelo urbanismo, ainda sobraram chafarizes doados por Richard Wallace.  Estes se integraram de modo tal à paisagem que o município passa a encomendar regularmente novas peças... Na Haute-Marne, visto que a fundição de arte GHM perpetua tal fabricação.

Os chafarizes Wallace foram exportados para diversos países. Foram reencontrados nos Estados Unidos,  e na Suíça, no Jardim Botânico e Floresta da Tijuca - Rio de Janeiro.

Outras assinaturas podem ser encontradas no Rio, de autoria de artistas, não do século XIX, mas do século XVIII: Atalante e Hipomena, de Lepautre et Coustou, ou Mercúrio, de Jean de Bologne, a principal peça da obra desse escultor do século XVI.

Hígia, Hipócrates e a Diana de Gabiés são cópias de estátuas existentes também em museus (o Louvre, por exemplo).

Também existem modelos anônimos "pertencentes à Société Anonyme des Hauts-Fourneaux et Fonderies du Val d'Osne" dos quais "cópias, imitações, falsificações e submoldagens serão reprimidas conforme a lei..."

Foram evocadas aqui somente as peças artísticas em ferro fundido existentes no Rio de Janeiro. Podem ser encontradas, no entanto, em outras cidades brasileiras: Belém, Recife, Petrópolis, Manaus, Salvador e Florianópolis. Reencontramos muitas vêzes os mesmos escultores. Permito-me, contudo, evocar Dielbot do qual as duas mais importantes estátuas foram localizadas em Manaus: o Zuavo e o Fuzileiro. As peças ornavam outrora a ponte de Alma, em Paris. Retiradas dali, não mais se teve notícias delas.

 

Georges Dielbot (1816/1861), natural de Dijon e aluno de Ramey e Dumont, como Mathurin Moreau, ganhará o Prêmio de Roma em 1841. Trabalhará também para o Louvre e fornecerá diferentes modelos para ferro fundido, inclusive o Zuavo e o Fuzileiro.

 

 

IV - TÉCNICAS DE FABRICAÇÃO: MOLDAGEM, FUNDIÇÃO, MONTAGEM E ACABAMENTO

 

IV  -  1  -  PRÓLOGO

 

Desde a obra original do escultor até a estátua concluída, muitas horas se passarão e variadas competências serão envolvidas. O esquema a seguir permite colocar em cena  uma dezena de profissões diferentes e complementares: o escultor, o modelador, o moldador, o nucleador, o fundidor, o rebarbador, o cinzelador, o ajustador e o aplicador de pátina.

Graças aos relatórios das exposições universais, os progressos técnicos puderam ser acompanhados. 1855: "As obras ornamentais fundidas, que outrora eram pesadas e sem graça, distinguem-se hoje pela elevada pureza de formas aliada a uma admirável delicadeza de execução"; 1867: "Eles (os fundidores) conseguem fazer tudo o que desejam. Moldagens artísticas de objetos delicados ou de monumentos, eles tudo abordam com o mesmo êxito". Em 1873, Antoine Durenne, então membro do júri, comentará a história industrial e técnica da fundição artística numa nota bastante interessante na qual evoca a habilidade dos operários, alguns deles "verdadeiros artistas".

A fabricação de uma estátua requer, com efeito, muitas horas de trabalho e múltiplas competências.

 

IV-2  -  O MODELO

 

IV-2-a - definição
    O modelo é uma reprodução da obra original do artista. Geralmente, este original, em terra, é moldado em gesso. A partir dessa impressão, o modelador cria o modelo, também de gesso, destinado ao fundidor. Esse modelo será utilizado somente uma vez, caso o escultor deseje uma obra única, ou dezenas de vezes como ocorreu no caso dos modelos de fundição artística.

Esse mesmo modelo poderá ser reproduzido em tamanho original ou em diferentes tamanhos graças a um processo de reprodução inventado por Achille Collas: o pantógrafo. Dessa forma, as numerosas obras-primas, até então dentro dos museus, puderam ser "recopiadas".

Em conseqüência da retração da peça fundida no momento de seu arrefecimento, o modelo deverá ter dimensões superiores de 1,5% em relação à obra desejada.

 

IV-2-b - Gesso
    O gesso é empregado de preferência para modelos esculpidos que apresentam certos relevos. Podendo ser cortado de forma melhor que a madeira, o material oferece  ângulos mais vivos que são guarnecidos com  a dureza necessária para resistir à moldagem, pela aplicação de uma camada de óleo sicativo.

 

IV-2-c - Contra-modelo em metal
    Com o objetivo de preservar os gessos utilizados geralmente, um contra-modelo é às vezes produzido em metal (ferro, bronze, estanho). Esse novo modelo é, na maioria das vezes, fundido elemento por elemento (correspondente aos blocos comprimidos: ver moldagem).

 

IV-2-d - Elastômero

O elastômero é um polímero que possui propriedades elásticas. É utilizado para copiar um modelo e permitir sua reprodução em ferro fundido por meio de técnicas simplificadas. Trata-se de uma tomada de impressão, em positivo, pela aplicação de elastômero a quente. Falaremos mais a respeito do elastômero ao abordarmos as técnicas de restauro.

 

IV-2-e - Materiais atuais
    Outros materiais são utilizados para a confecção de modelos, mais especialmente as resinas sintéticas, das quais a utilidade será constatada quando da restauração das obras fundidas.

 

IV-3  -  MOLDAGEM

 

IV-3-a - definição
    A moldagem consiste na coleta da impressão da peça que se deseja reproduzir. A moldagem das peças artísticas em ferro fundido é feita com areia, argila ou terra.

Existem outros processos de moldagem que mencionaremos apenas como lembrete pois não tocam diretamente o assunto que nos diz respeito: a moldagem em carapaça, coquilha e cerâmica, cujas aplicações são específicas.

Tampouco evocaremos as moldagens a modelo perdido (cera ou poliestireno perdidos), e a vácuo. Embora possam ter relação com a fundição artística, elas se aplicam geralmente ao bronze para a produção de exemplares únicos.

Será necessário frisar que a qualidade da peça fundida moldada, tanto no que tange sua superfície e seus contornos quanto sua lisura, depende da qualidade da moldagem e da areia utilizada?

A moldagem das fundições artísticas é feita mais tradicionalmente:

 

IV-3-b - em areia verde
    Executada à mão ou à máquina, a moldagem em areia verde consiste na utilização de um molde constituído de areia argilosa úmida comprimida. A expressão "verde" alude à presença de umidade na areia e indica que o molde não está seco nem estufado. Apesar de ser amplamente utilizado, o método não é adequado para as peças de grandes dimensões ou peso elevado.

 

IV-3-c - em areia dura
    Esse processo é usado para peças de grande porte e consiste na utilização de areia dura. Tão logo o molde estiver confeccionado e o modelo retirado, pulveriza-se um produto refratário sobre a impressão do molde fazendo-o endurecer. No processo clássico de moldagem em areia estufada, a areia é endurecida por aquecimento do molde. No processo a frio, a areia seca, sem argila, é misturada a uma resina aglomerante acrescida de um catalisador que a faz endurecer em poucos minutos.

O moldador, trabalhando com areia verde ou areia dura, trabalha da seguinte forma: enche dois chassis com molde de areia bem compactada. Em seguida, colhe a impressão da peça a ser produzida introduzindo o modelo a meia espessura (no plano de junção), lado dianteiro e lado traseiro, na areia de cada chassis. Após ter colocado o núcleo e traçado o canal de escoamento e os dutos de escape dos gazes, preparado as masselotas (reservas de metal líquido que alimentarão a peça durante seu esfriamento), os chassis são perfeitamente encaixados. O molde pode então receber o metal em fusão que desposará exatamente os contornos da impressão deixada na areia.

 

IV-3-d - Moldagem em blocos comprimidos
   A moldagem em blocos comprimidos é utilizada para os objetos que apresentam concavidades em seus contornos e cuja desmoldagem não seria possível mesmo quando modelos e chassis estivessem decompostos. Nesta série, são incluídas principalmente as estátuas e as peças ornamentais em relevo.

Nesse caso, a impressão dos elementos salientes ou côncavos, que podem ser braços, roupas, atributos ou certos detalhes do rosto, denominados contra-despojos, é colhida separadamente do conjunto, compactando-se areia, em blocos, nas partes complexas. Mais tarde, iremos propor-lhes uma visão da moldagem em blocos comprimidos de uma estátua, que permitirá compreender melhor a técnica.

 

IV-3-e - Moldagem de grandes estátuas
    Quando se trata de moldar e fundir estátuas de grandes dimensões, a manipulação do modelo é impossível. Este é dividido em partes distintas e a moldagem de cada parte é feita  quer de modo tradicional, quer em blocos comprimidos. A última estátua da Liberdade de Bartholdi, fundida em Sommevoire, em 1958, foi moldada desse modo. Sua altura (12 metros) e a quantidade de metal necessária (12 toneladas) exigiram técnicas especiais a respeito das quais falaremos mais tarde.

 

IV-3-f - Moldagem a molde giratório

A moldagem em terra, moldagem a molde giratório, foi utilizada para grandes vasos e tanques: em torno do núcleo, circunda-se uma espessura de terra, denominada  falsa peça, que representa com exatidão o objeto a ser fundido. Esta é recoberta por várias camadas de terra espessa que compõem a chapa. A falsa peça é então retirada, deixando o vão formado para a passagem do metal. Após aquecer, comprimir e enterrar o molde, é feita a corrida. Em se tratando de peças ornamentadas a serem moldadas em terra a molde giratório, grandes vasos ou tanques, devemos cuidar para restituir à falsa peça ornamentos em cera ou modelos em relevo, cuja impressão ficou retida pela chapa e que são derretidos ou retirados por ocasião da desumidificação.

 

IV-3-g -  submoldagem

Quando o fundidor necessita refundir uma peça da qual ele nunca possuiu ou não possui mais o modelo, ele colhe a impressão diretamente na peça fundida. Esse processo não proporciona satisfação total visto que os motivos perdem nitidez e a peça obtida dessa forma é 1,5% menor que seu modelo em conseqüência da retração do metal.

 

IV-3-h - moldagem a elastômetro

A flexibilidade do elastômetro permite moldar contra-despojos sem problema. Após a coleta da impressão, a areia é despojada do modelo, que é retirado como uma luva deixando intactos todos os relevos.

 

IV-4  -  O NÚCLEO

 

IV-4-a - definição

Os núcleos são elementos de areia que foram endurecidos permitindo sua manipulação. São introduzidos no molde para constituírem as superfícies interiores da peça moldada ou para dar forma a uma superfície externa onde não é possível fazê-lo com a ajuda do modelo. A complexidade do núcleo depende da configuração interna da peça.

 

IV-4-b  -  Os diversos materiais possíveis

O núcleo é geralmente constituído de areia siliciosa misturada com um ligante (óleo ou resina termo-endurecedora). Ele será compactado à mão dentro de uma caixa de núcleo ou à máquina. Nesse caso, utiliza-se ar comprimido ou um gás frio que permitem, tanto um quanto outro, o endurecimento instantâneo do núcleo.

 

IV-4-c - Os processos tradicionais

Todas as peças artísticas em ferro fundido são ocas por razões de peso e principalmente para a uniformização do arrefecimento do metal. Para confeccionar o núcleo das estátuas, era necessário preencher a impressão exterior com areia compactada, endurecida por ocasião do estufamento. O núcleo era então retirado e lixado de modo a subtrair uma espessura uniforme e deixando um espaço vazio entre a impressão do molde e o núcleo. Após recolocar o núcleo, suspenso por traves no centro da impressão, era feita a corrida e o metal preenchia assim o vão livre já preparado.

 

IV-5  -  ELABORAÇÃO E CORRIDA DO METAL

 

IV-5-a - Histórico

O ferro não existindo em estado natural sobre a Terra mas sob a forma de óxido, ele será elaborado através de redução do minério de ferro num alto-forno. Camadas alternadas de minério de ferro, triturado e lavado, elementos fundidores destinados a aglomerar as impurezas, e combustível (carvão vegetal) são enfornadas permanentemente no alto-forno. O carvão vegetal desempenha um papel complexo:

- ele funde: sob o efeito do calor, o minério grelha, torna-se pastoso e se liquefaz, descendo para a parte inferior do alto-forno: o cadinho.

- ele reduz: o carbono, ávido por oxigênio, "suga" o oxigênio contido no minério de ferro que se transforma em ferro,

- ele alia-se: partículas de carbono misturam-se ao ferro, modificando assim a estrutura e os componentes mecânicos do metal, que se torna então ferro fundido, ou seja, ferro contendo partículas de carbono sob a forma de lamelas.

As primeiras peças artísticas foram produzidas em ferro gusa de primeira fusão, elaborado nos altos-fornos. Mais tarde, foram fundidas com material de segunda fusão, refundido nos cubilôs.

O cubilô é um aparelho de fusão dotado de uma cuba dentro da qual alterna-se pedaços de ferro gusa da primeira ou da segunda fusão com elementos fundidores e coque.

Inventado no século XVIII pelo cientista metalúrgico francês Réaumur, o cubilô continua sendo o principal meio de fusão destinado a gerar ferro fundido cinzento - material utilizado desde o século XIX para a confecção de peças artísticas em ferro fundido. Com um funcionamento seguro, simples e econômico, apesar do advento de novas tecnologias, o cubilô ainda deverá prestar muitos e bons serviços.

Outros aparelhos de fusão, tais como os fornos a gás ou elétricos, permitem elaborar peças mais complexas, utilizadas para o mobiliário urbano. Abordaremos aqui apenas o cubilô e o ferro fundido cinzento a grafite lamelada.

 

IV-5-b - Modo de funcionamento do cubilô e corrida

O metal em fusão desce para a parte inferior do cubilô, onde se acumula. No momento do escoamento, realiza-se a limpeza, isto é, a evacuação das impurezas que flutuam na superfície do metal. A evacuação é feita através de um orifício localizado lateralmente. As impurezas são recolhidas num recipiente e, em seguida, evacuadas.

A corrida a partir do cubilô ocorre após a remoção da tampa refratária que veda o orifício de escoamento. O metal corre então através da canaleta de corrida para um bolso em ferro fundido aquecido, dotado de revestimento refratário. O bolso é transportado para o canteiro de moldagem, onde o molde, que não deve de modo algum ser transportado, está aguardando.

A corrida consiste no enchimento do molde com metal a 1.500º C. Este vai se introduzir no espaço já preparado e desposar fielmente a impressão externa e interna formada pelo moldador.

As peças artísticas fundidas são geralmente vertidas num único jato. Caso sejam volumosas, duas ou três alimentações simultâneas podem ser realizadas através de dois ou três orifícios diferentes.

Caso se trate de estátuas volumosas, cada molde é corrido em separado. As diferentes partes serão reunidas e montadas na oficina de ajustagem.

- a corrida por bolso é a mais utilizada. Os bolsos podem conter entre 30 kg e várias toneladas e são trazidos para baixo da canaleta de corrida do cubilô. Destampado o orifício, o metal derretido escorre para dentro do bolso que será transportado até o molde e inclinado de modo a verter o metal no molde. A velocidade da corrida, bem como a localização dos jatos, canais e respiradouros, desempenham um papel essencial para o êxito da operação. O ataque da corrida é geralmente colocado no plano de junção de modo a proporcionar alimentação uniforme na peça. No caso das estátuas, esse ataque é colocado nas dobras e nos detalhes dos corpos de modo a ficar invisível após o acabamento.

- existem outras técnicas de corrida:

- A corrida em queda livre consiste na alimentação dos moldes em ferro fundido a partir diretamente do alto-forno ou do cubilô, por meio de canaletas de corrida que descem para os canais e jatos de corrida do molde. Os canais se localizam na base do forno e são construídos em declives suficientemente angulados para alimentar o molde sem rapidez nem lentidão excessivas. Para facilitar a penetração do metal, os moldes são inclinados.

- a corrida em chafariz: a peça é alimentada pelo fundo e o metal aflora até as masselotas localizadas acima da peça.

- a corrida por centrifugação: o metal, introduzido num molde em rápida rotação, adere às paredes deste. A moldagem de tubos é feita dessa forma.

- a corrida contínua, utilizada para fabricar mono-produtos derramados por gravitação numa matriz em grafite.

- a corrida sob pressão, processo experimental permitindo a confecção de pequenas peças com altíssimo nível de detalhamento. 

 

IV-5-c - O ferro fundido na GHM Sommevoire para as peças ornamentais

Na fundição artística GHM, em Sommevoire, a fundição das peças ornamentais é elaborada do seguinte modo:

Tipo de ferro fundido: ferro fundido cinza, chamado FGL, ferro fundido a grafite lamelada a 3,25 - 3,5% de carbono, 2 - 2,5% de silício, 0,7% de manganês.

O meio de fusão é um forno cubilô a vento frio com vazão de 3,8 ton/hora.

Elaboração do ferro fundido: carregamento do cubilô 7 vezes por hora. Cada carga pesa 450 kg e é composta de:
. ferro novo em lingote (ferro brasileiro): 15 - 20%
. aços: 10 - 15%
. VF 1 (ferro velho, recuperação de ferro de motores),
. VF 2 (recuperação de ferro de radiadores).
. retornos de corrida: 60 a 70%
. acréscimos de silício e magnésio
. coque: combustível: 13 - 15%
. castina (dá fluidez e aglomera as impurezas ou escórias): 6%

A temperatura na saída do cubilô é de 1.450º C - 1.500º. Na corrida nos moldes, ela se reduziu a 1.350º - 1.430º O ponto de fusão situa-se em 1.150º
 

IV-6  -  ACABAMENTOS

 

Após a corrida, a peça permanece no molde por um período suficiente para assegurar seu esfriamento. Este deve acontecer de modo progressivo. Em seguida, ocorrerão operações importantes e delicadas:

 

IV-6-a - Separação e desenchimento

Separação consiste em extrair a peça de seu molde. Este é colocado sobre um aparelho que, por vibração, destrói o molde e evacua a areia. O núcleo, ainda retido no interior da peça, também é evacuado por fratura da areia em pedaços.

 

IV-6-b - areamento

A peça será limpa da areia que ainda adere na sua superfície por meio de projeção de areia, bilhas de aço ou escórias, que lhe proporcionará um aspecto liso e limpo. Antigamente, essa operação era realizada com o uso de escova metálica.

 

IV-6-c - rebarbagem

A peça limpa será entregue ao rebarbador que irá suprimir rebarbas, imperfeições e excrescências de metal resultantes da corrida, bem como os jatos, respiradouros, canais de escoamento e masselotas. Efetuada antigamente com o uso da lima e do alicate, tal operação é hoje realizada por meio de fratura e esmerilamento.

 

IV-6-d - os reparos

Tão logo a peça é posta "a descoberto",  as aberturas (poços de evacuação do núcleo e saída das traves que suspendem o núcleo dentro do molde, por exemplo) são soldadas e vedadas e as asperezas e os pequenos defeitos aparentes são regularizados.

 

IV-6-e - a cinzelagem

Essa operação, efetuada pelo escultor ou pelos operários mais habilidosos, consiste em devolver vida e frescor à peça. Cinzéis e encalcadeiras são utilizados para suprimir todos os vestígios da corrida, apagar as junções, reavivar um olhar ou aprofundar a dobra de um vestido. Em 1847, Guettier escrevia: "O ferro fundido quando doce é perfeitamente reparável por meio de lima e encalcadeira e, caso a primeira moldagem tenha sido realizada com cuidado, ele apresenta uma superfície mais unida do que qualquer outro metal".

 

IV-6-f - a montagem

Se a moldagem e a corrida foram efetuadas em diferentes partes, a estátua é montada por meio de encaixe a frio. Este será consolidado por grampos fixados por rebites ou pinos aparafusados no interior da estátua. Em seguida, o cinzelador intervirá para "reacasalar o metal" e apagar qualquer vestígio da junção.

 

IV-6-g - o polimento

Antes de receber seu revestimento, o metal é polido de forma a proporcionar uma pele azul-prateada, muito lisa.

 

IV-6-h - pintura, galvanoplastia

Em seguida, para protege-las da oxidação e, portanto, da ferrugem, as obras em ferro fundido são imediatamente recobertas de pintura, zinco ou bronze. Essa galvanoplastia pode ser efetuada tanto a frio, por depósito eletrolítico, como a quente, por imersão em banho.

O abade Maréchal escrevia: "elas são por fim levadas ao pincel dos pintores que deve dar-lhes o tom da pedra, do mármore ou do bronze antigo, e até mesmo do ouro e da prata!" Outro método consistia em recobrir a peça a quente com óleo de linhaça.

Para ilustrar melhor essa exposição, bastante técnica, proponho que vocês acompanhem, através de slides, a fabricação de uma cariátide pertencente a um chafariz Wallace.


 

V  -  ANÁLISE DO MATERIAL, COMPOSIÇÃO, CARACTERÍSTICAS

 

Por ocasião de uma visita aos altos-fornos de Usilor-Sacilor - um grande grupo siderúrgico francês - fiquei perplexa com um comentário do diretor do laboratório de pesquisas, que me revelou que, depois de passar vinte anos observando o ferro sob todas as suas formas, o material ainda lhe era misterioso. Uma confidência surpreendente por parte de um especialista! Saberão todos que o ferro é o único metal magnético e o único cuja estrutura molecular varia no decorrer da elaboração?

 

V-1  -  O MINÉRIO DE FERRO

 

O ferro nativo, de origem plutoniana ou meteórica, e os minerais carbonatados são relativamente raros na Franca. Em compensação, os minérios oxidados, hematita vermelha, magnetita negra, limonita parda e minérios oolíticos são abundantes naquele país.

Na Haute-Marne, trata-se de minério de ferro hidratado, granuloso ou minério em grãos, denominado minério neocomiano ou minério portland. Caso o tratado de fundição redigido em 1847 por Guettier tenha credibilidade, esse tipo de minério tem a reputação de fornecer as mais belas peças moldadas em ferro fundido e de ser menos vulnerável ao ataque do contato com o ar.

Com teor médio de ferro de 50%, este minério também contém, em proporções reduzidas, outros elementos que irão influir nas características do metal.

 

V-2  -  DEFINIÇÃO DO FERRO FUNDIDO

 

"Carboneto de ferro que é produto imediato do tratamento dos minérios de ferro, ou dos ferros, pelo carbono". É elaborado em alto-forno por meio do tratamento de uma mistura adequada de minério, combustível e elementos fundidores. O alto-forno exerce um papel de reator químico complexo. A redução de óxido de ferro acontece graças ao óxido de carbono CO produzido pelas reações à alta temperatura.

Eis a fórmula simplificada da redução:

Fe2 O3 + CO = 2 FeO + CO2

 

V-3  -  DIFERENTES CATEGORIAS DE FERRO FUNDIDO

 

No século XIX, distinguia-se quatro variedades de ferro fundido, cujas qualidades diferiam conforme a combinação mais ou menos ativa do carbono: o ferro fundido negro e o cinzento, mais carburado, destinados à moldagem; o ferro fundido intermediário e o branco, destinados à afinagem.

Atualmente, seis categorias de ferro fundido são utilizadas:
- o ferro fundido cinzento a grafite lamelada, o mais utilizado,
- o ferro fundido a grafite esferoidal, também chamado ferro fundido GS, cujas qualidades mecânicas situam-se próximas às do aço,
- o ferro fundido a grafite vermicular, recentemente concebido, combinando as vantagens mecânicas do ferro GS e o grau de moldagem do cinzento,
- o ferro fundido branco, sem grafite, utilizado por suas qualidades de resistência à fricção e ao abrasamento,
- o ferro fundido maleável, isto é, o branco cozido novamente de modo a adquirir uma resistência mecânica ainda mais elevada,
- o ferro fundido aliado, com qualidades próximas às do aço, reservado para utilidades específicas.

 

V-4  -  O FERRO FUNDIDO A GRAFITE LAMELADA

 

O ferro fundido cinzento é uma combinação de ferro com proporções de carbono que podem variar de 2,5 a 4,5%. O carbono alia-se ao ferro sob a forma de palhetas grafitosas lameladas e tem a propriedade de aumentar a tenacidade deste.

Tal combinação se complica conforme o modelo de tratamento aplicado e conforme a natureza dos minérios.

Com efeito, o ferro fundido recebe destes minérios ínfimas quantidades de diferentes elementos, como o fósforo, que torna o ferro fundido quebradiço sob frio, fornecendo-lhe contudo fusibilidade e fluidez indispensáveis para a moldagem de ornamentos delicados; o silício, que fornece fluidez ao ferro fundido de moldagem; o alumínio que impede a formação de bolhas e aumenta a tenacidade das moldagens; o manganês que, em proporções reduzidas, possui propriedades de afinagem e desulfuração; o enxofre, que o torna quebradiço sob calor e cuja presença danosa aumenta a retração e faz recompactar o ferro fundido, o potássio e o arsênio.

Num manual do fundidor de 1847, o ferro fundido cinzento era assim definido: "um pouco elástico, um pouco flexível, um pouco dúctil, um pouco maleável... fluido e doce, tem grande expansão e não tão grande retração ao solidificar-se. O produto pode, portanto, reproduzir melhor do que o cobre os objetos mais delicados. São a estas propriedades que devemos os ornamentos tão nítidos e bem cuidados que enfeitam as residências, praças e jardins públicos... As estátuas moldadas para os chafarizes de Paris pelos senhores Calla, André e Muel demonstram que a fundição de ferro pode desde já partilhar com a fundição de cobre a reprodução das obras de nossos artistas". 

 

V-5  -  QUALIDADES E DEFEITOS DO FERRO FUNDIDO CINZA GL DO SÉCULO XIX

 

V-5-a - Qualidades:
. Elevado grau de fluidez sob alta temperatura que lhe permite desposar os menores detalhes do molde e reproduzir objetos perfeitos. "As impressões recebidas pelo ferro fundido cinza são tão perfeitas que podem garantir ao escultor a sua obra perfeita e a salvo do buril do cinzelador".
. Elaborado com carvão vegetal, o ferro fundido cinza é doce e puro, com admiráveis qualidades de lisura e resistência. Caso o molde tenha sido confeccionado com cuidado, o material apresentará uma superfície mais unida do que qualquer outro metal.
. Quando doce, é perfeitamente reparável por meio de lima ou encalcadeira.
. Extremamente resistente à compressão (sessenta vezes mais do que a pedra), ele se presta facilmente à moldagem, permitindo a obtenção de peças em monobloco que apresentam certa complexidade.
. Sua densidade (7,8) autoriza uma grande resistência para um volume mínimo. Em arquitetura, uma coluna contendo concreto deverá ter um diâmetro cinco vezes maior do que o de uma coluna em ferro fundido, para a mesma utilização.
. Resistência à usura.
. Nem gélivo, nem permeável à água, ele resiste bem às intempéries e à corrosão, sobretudo quando pintado: candelabros da praça Concorde moldados em 1840 foram trocados somente em 1992 por ocasião de uma reurbanização dos Champs Elysées.
. Baixo custo.

 

V-5-b - Defeitos:
. Fragilidade: as lamelas de carbono integrantes de sua estrutura metalográfica também são pontos ruptíveis.
. Quebradiço: sua baixa resistência à tração, à flexão e às vibrações deixa-o inapto a determinadas produções, como pontes, trilhos de estrada de ferro e vigamentos.
. Salvo no caso de ferro fundido muito doce, ele não pode ser forjado nem tampouco martelado a quente ou a frio.
. É extremamente difícil de soldar.
. É pesado.
. A oxidação provoca-lhe uma cor parda-avermelhada pouco compatível com os critérios artísticos.

 

V-6  -  ANÁLISE POR ESPECTOGRAFIA E MICROGRAFIA DE UM ELEMENTO  DE ESTÁTUA FUNDIDA NO SÉCULO XIX EM SOMMEVOIRE

 

V-6-a - Espectografia:

A espectografia possibilita o reconhecimento instantâneo dos diferentes componentes de um metal através da análise de seu espectro. A emissão ou absorção de luz pelos corpos  é causada por modificações energéticas no interior dos átomos ou das moléculas. O comprimento da onda de luz emitida ou absorvida será sempre uma característica do átomo ou da molécula, permitindo a identificação do corpo por meio da identificação de seu espectro. Em espectografia de emissão, utiliza-se:
. a espectografia em chama (jato de líquido pulverizado numa chama e análise da intensidade das raias por meio de célula fotoelétrica)
. a espectografia de arco ou de centelha, na qual dispara-se um arco elétrico entre o metal a ser estudado e um eletrodo.

O segundo método foi utilizado para analisar uma peça de estátua (dedo) fundida no século passado pela fundição de Sommevoire. A leitura do espectro, após o centelhamento, revelou os seguintes resultados:

- Carbono: 3,44%  combustão em forno alto-forno, detecção infravermelha

- Silício: 1,34%  gravimetria

- Manganês: 0,458%

- Fósforo:  1,57%

- Enxofre:  0,381%

- Ferro:  92,81%

O teor de todos os demais elementos são inferiores a 0,1%

As altas taxas de enxofre e fósforo permitem concluir que este material foi moldado diretamente a partir de um alto-forno tendo como base um minério local.

A análise confirma as informações já colhidas nos arquivos e relatórios de exposições universais.

A composição do ferro fundido GL é hoje, de modo geral, a seguinte: de 2,5 a 3% de carbono, 2% de silício, 0,8% de manganês, os demais elementos tendo sido eliminados na primeira fusão ou  incorporados à escoria.

 

V-6-b: micrografia

A micrografia é a representação da estrutura de um metal observado através do microscópio. A do material analisado faz ressaltar uma fonte infiltrada de grossas lamelas de grafite, indicando forte tenacidade à ação do tempo mas também vulnerabilidade a choques e tensões. Com efeito, cada lamela representa um ponto de ruptura potencial.
 

VI - ANÁLISE DOS FENÔMENOS DE ENVELHECIMENTO, CORROSÃO, DESGASTE E ACIDENTES

 

Embora as qualidades de resistência do ferro fundido representam o trunfo principal
da sua longevidade, ser quebradiço é o defeito que mais devemos temer. Da mesma forma, no caso de estátuas e chafarizes montados, é possível constatar sua fragilização com o passar do tempo.

 

VI -1 -  ENVELHECIMENTO

 

O ferro fundido não envelhece. Sua estrutura interna é inerte, Na ausência de ataques externos, como a corrosão, a não-datação do material chega a ser possível. O ferro fundido protegido seria, portanto, eterno... Simplificando o fenômeno ao extremo, é exatamente o que ocorre com o bronze e o cobre.

Nas fundições de Sommevoire, tivemos a oportunidade de examinar  alguns lampadários instalados em 1840 na praça Concorde, em Paris, substituídos em 1990. Sem falar da alta qualidade dos motivos, ficamos surpresos com o grão do ferro fundido e com o excelente estado de conservação desses lampadários, apesar de ficarem mergulhados, durante um século e meio, numa atmosfera extremamente corrosiva. Por que, então, foram eles trocados? Simplesmente porque sua estrutura não previa a abertura, hoje indispensável, para a instalação das caixas elétricas.

 

VI - 2 - CORROSÃO DO FERRO FUNDIDO CINZENTO

 

Embora o ferro fundido resista bem à corrosão e, de qualquer forma, melhor que o aço ou o ferro, ele não é invulnerável.

Existem dois trabalhos referenciais tratando da corrosão do ferro fundido: os livros "Corrosion Guide", de Rabad, e "Corrosion Data Survey", da N.A.C.E.

Levando-se em conta a especificação da peça artística em ferro fundido, estudaremos mais detalhadamente a corrosão do ferro fundido cinzento a grafite lamelada.

 

VI-2-a - definição

Trata-se da deterioração dos metais, sob temperatura normal e sob o efeito de agentes atmosféricos, produtos químicos, fenômenos eletroquímicos ou bacteriológicos.

Devemos frisar que o ferro fundido, fraca ou fortemente aliado, apresenta alta resistência à corrosão. A composição química e a repartição dos constituintes da microestrutura do material são fatores que influenciam sua capacidade de luta contra a corrosão.

Geralmente, as condições de ataque sendo homogêneas, a corrosão é uniforme. Esse fenômeno se deve à existência de fases finamente divididas. Dentro de um meio heterogêneo, a corrosão pode assumir o aspecto de ataques localizados.

Em caso de ferro fundido protegido, a corrosão depende, especialmente, da natureza do metal suporte, das características e natureza da interface metal-revestimento, da natureza do revestimento e do modo de aplicação.

Em quaisquer casos, qualquer que seja a agressividade da corrosão, o ferro fundido permanece um material privilegiado na maioria dos casos, em função da sua espessura.

Os fenômenos de corrosão podem ser químicos, eletroquímicos e bioquímicos.

 

VI-2-b - Corrosão química

É gerada pela interação entre metal, ar, águas, sais e outros fatores que iremos desenvolver. Tais componentes entram em reação química e diferentes produtos de alteração são constituídos. Resulta daí uma modificação da estrutura química do objeto.

 

- Processo de corrosão química

Dois fenômenos intervêm na corrosão química do ferro fundido:

 

. a formação de uma camada de óxidos

Quando uma superfície em ferro fundido fica exposta à umidade e ao ar, na presença de gás carbônico, óxidos de ferro são rapidamente formados:
- a limonita: óxido hidratado de cor laranja escuro que surge muito rapidamente,
- a ferrugem (2 FE 2 O3), de cor parda escura que, após exposição prolongada, forma uma superfície porosa na qual ficam retidos agentes corrosivos que podem penetrar as camadas e se fixar sobre o núcleo metálico.

A presença de silício no ferro fundido provocará a formação de uma camada de óxido de ferro-silicato de ferro, densa e aderente, que retarda o processo de oxidação. Praticamente, quando as condições são apropriadas, a camada pode impedir o prosseguimento do ataque. Em inúmeras aplicações, essa única proteção permite aos ferros fundidos cumprirem sua função por cerca de dez anos.

 

. A grafitização: Na corrosão normal, o ferro se transforma em óxido hidratado ao passo que a grafite, um material inerte, não é atacada e mantém a ferrugem no lugar, formando assim uma proteção eficaz contra a penetração do meio agressivo. As partículas de grafite interrompem a progressão da corrosão atmosférica, principalmente a progressão por pontos. A acumulação de grafite na superfície do metal corroído é às vezes impropriamente denominada de grafitização.

 

- Morfologia da corrosão química

Pode ser generalizada, uniforme, localizada na escala macroscópica (em função da estrutura da peça ou da heterogeneidade do meio), filiforme, localizada por ponto, intergranular, intragranular, galvânica, cavernosa por pilha de concentração seletiva, ou ainda resultante da ação combinada de corrosão e tensões mecânicas.

 

- Diferentes tipos de corrosão química
A corrosão atmosférica é evidentemente aquela que iremos desenvolver. Evocaremos contudo os demais tipos de corrosão química que podem ser encontrados no âmbito da restauração das peças artísticas em ferro fundido.

 

. Corrosão atmosférica

O ar ambiente é composto por aproximadamente 77% de nitrogênio, 21% de oxigênio, 1% de argônio, entre 1 e 2% de água, e 0,03% de gás carbônico. Também são encontrados traços de gazes raros (hélio, criptônio, etc.), poluentes (gazes sulfurosos e óxidos de nitrogênio), ions cloretos e poeiras (naturais ou resultantes da poluição).

Do ponto de vista da corrosão, o dióxido de enxofre, ou anidro sulfuroso, é o mais importante poluente. Origina-se essencialmente da combustão do petróleo e do carvão. Os óxidos de nitrogênio, despejados principalmente pelos motores a combustão, desempenham papel menos importante que o dióxido de enxofre e os cloretos.

Dentre as poeiras, as partículas de fuligem, por exemplo, provenientes de uma combustão incompleta são mais particularmente nocivas em função de seu grau de corrosão.

Por fim, a umidade relativa do ar fornece uma indicação crucial para os fenômenos de corrosão pois determina a condensação. Ora, a água condensada pode formar um eletrólito na presença de sais (oriundos de reações com poluentes, por exemplo).

O ferro fundido exposto à umidade do ar fica rapidamente recoberto por um óxido cor laranja e, em seguida, pardo escuro: a ferrugem, correspondente à fase grafítica do processo e assegurando boa resistência à corrosão.

A corrosão do ferro fundido pela atmosfera depende, portanto, da umidade e do teor em gás sulfuroso. Até mesmo em atmosferas muito poluídas, a corrosão é muitas vezes inferior a 0,13 mm/ano, o que equivale uma perda de massa muito pequena. Torna-se notável quando a umidade ultrapassa 70% (entre 25 e 150 micrômetros por ano, conforme se encontre numa atmosfera rural ou industrial carregada de dióxido de enxofre, ou numa atmosfera marinha carregada de maresia).

Essa boa resistência à corrosão provém do fato que os produtos de corrosão que subsistem na superfície do ferro fundido exposto desempenham um papel protetor. Por outro lado, estudos sobre a corrosão atmosférica demonstraram que a velocidade da corrosão diminuía com o passar do tempo, tendendo para um valor constante após dez anos de exposição.

Antes de concluir este parágrafo sobre a corrosão atmosférica, devemos levar em conta o impacto corrosivo das chuvas ácidas cujo grau de nocividade sobre os vegetais já foi medido.

 

. corrosão pela fumaça

Pode ser considerada insignificante para o caso das peças artísticas em ferro fundido. Aplicável apenas para objetos tais como placas de chaminés ou caldeiras e aparelhos de aquecimento varridos pelos gazes.

 

. corrosão pela água

Uma tubulação de água em ferro fundido foi instalada no castelo de Versailles em 1664. Aliás, foram as fundições da Haute-Marne que produziram e forneceram boa parte da tubulação. Ela ainda se encontra em operação, tendo sido substituída muito parcialmente. Após a formação de uma camada protetora na tubulação (carbonato), a água permite ao ferro fundido não revestido prestar excelentes serviços. Em compensação, as águas contendo gás carbônico em solução, efluentes ácidos e cloretos tendem a ser corrosivas o bastante para justificar a aplicação de um revestimento interno (betume ou cimento, por exemplo). Assim, a resistência do ferro fundido à corrosão da água é boa, contanto que haja imersão. O arejamento tende a acelerar a corrosão. Ou, mais precisamente, a alternância de imersão e arejamento.

 

. Corrosão pelos solos

A corrosão pelos solos é um fenômeno complexo. A natureza e a porosidade do solo, sua drenagem, os constituintes dissolvidos nas águas de infiltração são diferentes fatores que influenciam a duração da vida do ferro fundido nos solos.

Em 1968, existiam nos Estados Unidos 130 empresas de distribuição de água ou de gás, cujas redes de distribuição, em ferro fundido, operavam há mais de um século. Cerca de 90% dessas tubulações tinham sido instaladas sem nenhum revestimento especial. Uma pesquisa fez ressaltar que menos de 2% dessas tubulações tinham sofrido danos importantes em sua parte  externa. A resistência à corrosão do ferro fundido cinzento nos solos é, portanto, especialmente admirável. Também nesse caso, a espessura do metal constitui um fator essencial.

 

. Corrosão pelos ácidos

O ferro fundido não aliado resiste mal aos ácidos minerais, em concentração diluída ou média. A presença de ar ou de outros agentes oxidantes acelera o ritmo da corrosão. A corrosão pelos ácidos orgânicos presentes nos alcatrões de hulha é geralmente lenta.

 

. Corrosão pelos álcalis

A resistência à corrosão do ferro fundido em soluções alcalinas é, de um modo geral, boa. O metal não é corroído de modo sensível pelas soluções alcalinas diluídas, até mesmo em temperaturas elevadas.

 

. Corrosão pelas soluções de sais

O ferro fundido pode ser utilizado, sem corrosão excessiva, para manutenção de numerosos sais ou soluções salinas. Os sais que se hidrolisam para formar uma solução alcalina, como os cianuretos, silicatos, carbonatos e sulfetos, têm ação corrosiva relativamente lenta. No caso dos sais que se hidrolisam formando uma solução ácida, a corrosão é muito mais importante, particularmente quando os sais são oxidantes ou as soluções arejadas.

 

. Corrosão pelos compostos orgânicos e compostos sulfurados

O ferro fundido é usado com freqüência para a manutenção dos álcoois metílico, etílico, butílico e amílico, bem como da glicerina. As soluções de álcool e água, na presença do ar, podem às vezes provocar uma ligeira corrosão.

 

IV-2-c - Corrosão eletroquímica ou galvânica

 

- Definição da galvanoplastia

A galvanoplastia é a operação que consiste em depositar eletroliticamente numa superfície condutora uma camada de metal (ouro, prata, cobre, níquel, cromo, etc). Para tanto, o corpo a ser recoberto é imerso num eletrólito (corpo submetido à eletrólise), constituído por um sal do metal a ser depositado e diferentes agentes. O metal a ser recoberto é disposto em catodo. O anodo pode ser, tanto da mesma natureza que o metal depositado, quanto inerte em relação ao eletrólito.

Um metal pode ser anodo ou catodo na medida em que seu potencial for superior ou inferior ao do outro metal.

A operação pode ser feita a quente por imersão num banho do metal derretido, ou a frio por depósito eletrolítico.

Tem por finalidade proteger o ferro fundido da oxidação por recobrimento ou dar à estátua o aspecto do bronze.

A galvanoplastia é praticada na França desde o início do século XIX. Nos catálogos das peças artísticas em ferro fundido, as estátuas são oferecidas brutas ou bronzeadas. Em seu tratado "De la fonderie", de